O Silêncio do Riacho Adormecido
No segundo domingo do mês de agosto, despertei bem cedo, pois o meu destino era reencontrar as antigas caraibeiras presentes no município de Jaguarari, na Bahia.
Foram 44 km percorridos de bicicleta, acompanhada pela minha mãe, que conhece bem a região e já realizou diversas trilhas por ali com sua bicicleta vermelha.
No caminho, quase não encontrei as flores que costumava encontrar. Não havia as chananas embelezando o caminho com seu amarelo suave, nem as flores das Catingueiras, com suas cores vibrantes. Era apenas o amarelo da Senna alata e uma grande massa verde.
Ao observar todas as cores que encontrava, lembrei, enquanto seguia com pedaladas firmes, que a Caatinga já foi chamada de “mata branca”. Por vários quilômetros, tentei buscar uma razão para essa denominação. Porém, tudo o que conseguia ver eram diferentes tons de verde, até mesmo nas árvores que apresentavam poucas folhas.
Chegando ao Parque das Caraibeiras, desci da bicicleta com o olhar percorrendo as grandes copas que conseguiam deixar aquele espaço com uma iluminação aconchegante e um clima agradável.
Acredito que, ao chegar naquela área, estamos diante de condições diferentes das encontradas em outros espaços: temperatura, umidade, vento e incidência solar. Talvez esses fatores favoreçam o surgimento de um microclima naquele lugar. É algo que ainda quero compreender melhor.
Abaixando o olhar, comecei a dar passos mais largos à medida que chegava ao centro do parque. O que antes era um belíssimo riacho havia dado lugar a uma longa estrada de areia macia, coberta por pequenos caramujos.
Não foi fácil conter a surpresa. Eu realmente não esperava encontrar o lugar daquela maneira. Mas acredito que isso também faça parte dos ciclos daquele território. Para ter certeza, preciso retornar ao longo do ano e acompanhar.
Antes, eu esperava apenas pelo florescer das caraibeiras. Agora, meu olhar também está voltado para o riacho. Preciso entender a sua natureza e observar como tudo se organiza à medida que as condições se alteram.
Mesmo com o Riacho Sulapa adormecido, o momento de pausa aconteceu. Foram quase duas horas no local, entre observação, desenhos, registros fotográficos e pausa.
Pausa para ouvir o som do silêncio. Mas como seria o som do silêncio?
O vento...
Os pássaros...
O movimento e o ruminar de alguns animais...
A minha respiração.
Um silêncio que não representa ausência, mas presença.
Esse é o som do silêncio que me conecta ao parque, mas que também me faz conectar comigo mesma. É nesse espaço que alimento a minha criatividade, pauso alguns pensamentos e me reconecto com o agora. Essa conexão vem alimentando a artista, a escritora e a pesquisadora que existem em mim.
Caminhando pelo riacho, encontrei duas grandes árvores, aparentemente sem vida, porém firmes, com uma textura belíssima e uma pequena abertura que dava acesso ao tronco. Acredito que aquele espaço possa abrigar pequenos animais nesse período e, em outro momento, talvez possa ter servido de passagem para pequenos peixes.
Elas foram as protagonistas do meu sketchbook: Parei para fazer alguns rabiscos e aproveitei a belíssima forma que ambas apresentavam. Aos poucos, leves traços deram forma a duas antigas árvores que floresceram lindamente por muitos anos.
Quem sabe quantas pessoas passaram por ali e contemplaram suas flores? Agora, elas permanecem no mesmo local, porém contando uma outra parte da história daquele lugar e eu sigo observando, registrando, aguardando e me conectando com a natureza e comigo mesma, enquanto alimento a artista que existe em mim.



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