Os reencontros que florescem na paisagem
- Eveli Rayane
- há 3 dias
- 2 min de leitura
Terminei de tomar uma pequena xícara de café com canela e já começava a sentir a energia chegando ao corpo para mais um treino de corrida.
Geralmente, os meus longões acontecem bem cedo, mas neste domingo não consegui seguir a rotina. O percurso aconteceu no final da tarde, horário em que quase todas as flores que costumo observar já estão fechadas, aguardando o próximo amanhecer.
Ciente de como seriam os encontros, avistei diversas espécies recolhidas em seus próprios ritmos. Flores fechadas, pétalas recolhidas, movimentos que anunciam o fim do dia e foi justamente nesse percurso que percebi algo curioso:
Um vínculo começou a se formar.
Sabe quando você encontra um amigo ou um familiar e, antes de qualquer conversa, deseja apenas saber se está tudo bem? Essa é a sensação que tenho experimentado ao reencontrar algumas plantas ao longo do caminho.
Isso ficou ainda mais evidente quando encontrei uma das árvores que costumo observar durante os treinos. A felicidade genuína de vê-la tão bonita, coberta por flores brancas, foi inesperada. Por um instante, tive a impressão de que ela me contava suas novidades, como uma velha amiga faria após algum tempo sem nos encontrarmos.
Esse encontro tão belo não estava nos meus planos, diferentemente da flor do mandacaru, que eu acreditava encontrar.

Há poucos dias, ela estava fechada, prestes a florescer. Passei por ela imaginando o momento em que voltaria para observá-la aberta. Mas, ao chegar ao local, encontrei apenas o vazio, era como se a flor nunca tivesse existido. Acredito que alguém a tenha retirado antes da floração completa e, naquele instante, surgiu também um sentimento de perda. Não pela planta em si, mas pela ausência do encontro que eu esperava viver.
Talvez seja isso que acontece quando observamos com frequência, começamos a acompanhar histórias, esperamos florescer, percebemos ausências, celebramos retornos e nos tornamos testemunhas de pequenos acontecimentos que passam despercebidos para a maioria das pessoas.
Tenho sentido que observar, estudar, desenhar e aquarelar estão transformando a forma como me relaciono com a paisagem… As plantas deixaram de ser apenas objetos de estudo, pois cada caminhada revela indivíduos, ciclos, mudanças sutis e permanências. Ao desenhá-las, aprendo suas formas, observo suas cores e ao voltar para reencontrá-las, começo a conhecer seus ritmos.
E, pouco a pouco, percebo que o verdadeiro aprendizado talvez não esteja apenas em representar uma espécie no papel, mas em desenvolver a capacidade de estar presente diante dela.



Comentários